
Ilustração de Vânia Medeiros
Irritava-se com estas ignorâncias as quais somente eram permitidas as crianças, mas nem a estas ele tolerava. Meu avô era assim, passamos minha infância toda num confronto que parecia não ter fim, cada qual na sua trincheira. Eram sempre por coisas estúpidas, obviamente. Um doce atacado antes do almoço, a hipnose que a tv exercia sobre mim, a hora de dormir, etc etc.
Mas não éramos feitos só de rusgas. Suspendíamos temporariamente as hostilidades e ele tentava me ensinar a jogar xadrez, gostava de desenhar comigo e jogar bola (resolveu enterrar o desapontamento e a incapacidade da minha mãe lhe dar um neto varão). Depois dos doze, já não brigávamos mais, mas também não jogávamos mais xadrez, nem bola, da mesma forma que não desenhávamos. Para mim, ali somente havia a estrutura de um homem e parte da minha existência, mas tampouco ligava para isso.
Às vezes ele ria sem intento algum. Admirava esta espécie de virtude. De uma gargalhada rápida, porém arrastada; gasta. Lacrimejava numa gargalhada só.
Os surtos púberes, porém, nos fizeram retornar a aquela nossa remota relação combatente. No entanto eu resolvi adotar uma postura diferente, não ignorava a nossa incompreensão um para com o outro, pois sempre a achei digna de um vasto aprendizado. Passei então a rir ao final de todas as nossas discussões.
Não era nada forçado e nem precisava. Os motivos das brigas continuavam sendo pouco inteligentes, chegavam à comicidade facilmente. Ao final, ele sempre me acompanhava naquele riso franco e estrepitoso.
Estávamos todos juntos na véspera do seu pesar. E ele não podia deixar de gargalhar para mim. Ensinou-me a rir dos meus defeitos morais, destas pequenas imperfeições que me são próprias, a expô-los sem medo. Esta febre intermitente que é crescer.