_a totalidade das coisas
winneelouise
manifesta o cheiro que ficou no linho do dia anterior!
lembrei da noite em que chegaste à mim
em êxtase
mal podia acreditar na barra do meu vestido, bordada
quando na verdade não havia vestido algum
eu era a tua mulher
e ardia
sem representação alguma
sublimemente carne em cima da carne
das reservas que não fizemos um com o outro
do acúmulo hermeticamente preso na vontade tantas vezes morta
de vontade.
_contos familiares I
winneelouise
ousávamos acordá-la através dos meios mais inusitados
vezes beijávamos seus pés e cobríamos de planta e terra
ao nosso modo
como quem engendra encontrar a verdade
conhecer seus desejos
tatear suas dores
eram cheios de sol aqueles dias
em que queríamos mais de alguém
em que buscávamos mais de nós mesmas.
_um qualquer circense
rodolfoviana
ela recolheu do chão suas roupas – a camiseta com a estampa “free paris hilton”, uma calça jeans desbotada arremessada longe, uma calcinha contorcida em si mesma e uma meia embolada ["cadê o outro pé, merda?", balbuciava, e seu par parecia lhe responder em roncos].
no banheiro de seu homem, encontrou base branca e batom. estranharia se fosse qualquer outro, mas sabia: aquele corpo entregue ao sono, que jazia apesar do sol na cara e dos roncos que reverberavam a casa toda, era um palhaço. havia se entregado – só corpo, sem alma – a um palhaço vulgar alcunhado rocambole.
diante do espelho, a menina riu. imaginava como contar às pudicas colegas do fã-clube rbd que sua primeira vez havia sido com um qualquer circense.
_reprimenda
rodolfoviana
à noitinha…
quero nossos filhos correndo pelo jardim
rindo feito gente besta
enquanto sujam os pés descalços de barro
enquanto molham seus cabelos encaracolados de orvalho
e eu gritaria “não tomem sereno”
e você repreenderia
- a mim, não a eles -
“deixa os meninos”
_aqui jaz, ali jazz
rodolfoviana
quando a menina subiu no parapeito – com alguma maestria, como se praticado houvesse -, tocava i want a little sugar in my bowl na velha vitrola. em respeito a nina simone, ela esperou o último timbre para, enfim, pular.
do sétimo andar ao concreto, levou menos de dois segundos. escondido sob sangue e pedaços de cérebro que tomaram seu imaculado rosto depois do choque, havia um sorriso que somente nina e a suicída poderiam entender.
_tela preta
rodolfoviana
era dia ainda, mas o homem percebeu a queda de energia. a tevê oscilou uma, duas, três vezes, até que se desligou. indefinidamente. estava ele jogado no sofá, assistindo seu filme favorito – os goonies – quando a tela ficou preta. depois de berrar um “feladaputa”, o homem olhou o escuro à sua frente, e se reconheceu: viu no vidro o reflexo de si mesmo. ficou ali, parado, assistindo no aparelho desligado o reflexo de um personagem que era sua imagem e semelhança. imaginou que fosse mais um reality show. animou-se, pois adorava programas assim. está lá até hoje, esperando algum desdobramento, um desfile de mulher em trajes mínimos, uma prova do líder, um paredão, et cetera.
_à angorá
rodolfoviana
entremeados
nos lambemos
sem decoro
sem demora
entre miados
_poemeto
rodolfoviana
eu gosto
do gosto
do sal
do seu
corpo carnal

“Aqui jaz, ali jazz”…adorei!
Prendado o casal.:)