_A indistinta menina Richthofen
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Naquela manhã de segunda-feira, de clima ameno de julho, o promotor Nadir de Campos Junior estava acompanhado de sua filha mais velha, Tainara, que tinha interesse em conhecer tanta gente famosa da televisão. Era incomum àquele homem da lei ter ao seu lado a filha enquanto realizava trabalhos do Ministério Público, geralmente burocráticos e sem muita atenção popular. Aquele caso, contudo, contava com um acompanhamento acirrado pela sociedade devido a sua atrocidade, e havia aberto as portas da grande mídia ao promotor. Tainara queria apenas desfrutar do sucesso do pai. Enquanto a menina se divertia no mundo do faz-de-conta da televisão, o pai amargava noites em claro, na ansiedade por aquele dia que, enfim, havia chegado.
Mesmo insone, Campos Junior não transparecia abatimento e mantinha um ritmo agitado. Não era 9h ainda e o promotor já havia deixado a Rede Globo, onde fora entrevistado por Ana Maria Braga, e estava nos estúdios da Record, sendo interpelado por Britto Junior e Ana Hickman. A pauta daquelas entrevistas estava em todos os jornais, revistas, telejornais e sites de notícia do Brasil: o início do julgamento de Suzane Louise von Ritchtofen e de Daniel e Cristian Cravinhos.
No ar, o promotor fez uma promessa. “A entrevista, transmitida ao átrio do Fórum e assistida inclusive pelos acusados, dava conta de um compromisso meu para com a sociedade: Suzane entraria no Fórum com roupa amarela, típica dos presidiários detentos que aguardam julgamento”, lembra Campos Junior, que acreditava que veria aquela jovem de 22 anos deixar as dependências do prédio, no último dia de peleja judicial, ainda nas mesmas roupas em tom amarelo. Trocaria de roupa apenas na penitenciária onde cumpriria pena. Assim como os irmãos Cravinhos, executores do plano arquitetado por Suzane, a menina bem nascida também seria vista pelos sete membros do júri, pelas oitenta pessoas contempladas a assistir o julgamento da platéia do tribunal, pelas três mil pessoas que aguardavam do lado de fora do Fórum e por toda a imprensa em trajes que remetem ao encarceramento, à culpa e à podridão da sociedade. Esta foi a promessa de Campos Junior, ao vivo.
Compromisso assumido diante das câmeras, o promotor, em certo momento da entrevista, é interrompido por um telefonema. Alertado de que Suzane estaria passando mal, Campos Junior encerrou sua participação no programa e seguiu ao Fórum Criminal da Barra Funda, a 200 metros dali.
No Fórum, Campos Junior, geralmente de passos calmos e porte sereno, correu ao segundo andar, onde ficam as celas reservadas aos réus que aguardam julgamento. Rodeada por paredes verdes, grades e uma banca de advogados, estava Suzane. Havia malas e mudas de roupa, providencialmente trazidas por aqueles homens em paletós que buscavam sua absolvição. Toda aquela gente dava uma proporção menor aos 24 metros quadrados de cárcere. Campos Junior, no meio daquele universo todo, percebeu que o seu traje amarelo estava sujo. Pediu explicações.
Uma das agentes penitenciárias que acompanhara Suzane da Penitenciária de Rio Claro, onde a moça aguardava julgamento, viu pessoalmente aquela menina loira, de traços delicados e educação supostamente refinada, levar o dedo à garganta e provocar o vômito. Suzane “vomitou na própria mão e espalhou pela roupa amarela de detento em dia de julgamento”, relata o promotor. A escatologia, que nas palavras de Campos Junior fora “uma manobra ardilosa”, buscava a distinção aos olhos do júri. Enquanto os irmãos Cravinhos entrariam na corte com as vestimentas de detento, o que implicaria culpabilidade em potencial, Suzane entraria em trajes normais, como se não estivesse ali acusada de ter orquestrado a morte dos pais.
“Comuniquei o fato aos meus colegas de acusação – doutor Roberto Tardelli e doutor Alberto Zacarias Toron – e nós três chegamos à conclusão de que deveríamos fazer com que os irmãos Cravinhos trocassem de roupa também”, conta Campos Junior. No banco dos réus, os três estariam assim em posição linear, indistintos. Os irmãos Cravinhos, que também haviam visto o programa, ainda questionaram a possibilidade de se providenciar uma outra roupa amarela para Suzane. “Eles simplesmente queriam um julgamento justo”, aponta o promotor. Para conseguir outro traje, seria necessário adiar o início do julgamento, e a acusação temia que essa estratégia da defesa funcionasse. Suzane conseguiu, enfim, trocar de roupa e vestir-se casualmente. Adentrou ao palco do plenário do júri num moletom azul, mas em nada se distinguia dos irmãos, que estavam em calça jeans e camiseta branca. Não havia o que os diferenciasse ali: nem roupa, nem culpa.

Suzane e seus advogados, em outros momentos no decorrer do processo, procuraram a distinção de várias formas. Não apenas pelos trajes, mas também pela ascendência. Sob o signo do estigma nazista, a defesa fez manobras calcando-se numa suposta interferência de ter sua cliente, uma ariana neta do aviador do Terceiro Reich alcunhado “Barão Vermelho”, acusada por um negro e um judeu. Eis que surge o “espírito negão”, como consta nos autos e na imprensa da época. “Numa pincelada jurídica, era uma estratégia para nos afastar do processo. A argumentação da defesa baseava-se no fato de haver um negro, no meu caso, e um judeu, no caso do doutor Toron, na acusação, o que poderia prejudicar o processo”, explica Campos Junior, que resume o resultado do estratagema em seis palavras: “a argüição da suspensão não colou”.
O “espírito negão”, de fato, não colou. Assim como também não surtiu efeito outro espírito, este mais íntimo da acusada. A defesa, com a promessa de mostrar como evidência um documento-bomba, apresentaria uma carta psicografada por Chico Xavier. Quem subscreve o documento é uma das vítimas de Suzane, sua mãe, Marísia von Richthofen. “Na carta, a mãe supostamente pede aos jurados para que não a condene, pois ela se encontrava confortável no lugar onde estava e havia perdoado a filha por sua atitude”, conta Campos Junior. Não foi preciso exame grafotécnico para constatar a falsidade da correspondência além-mundo, e não por conta da letra feminina, o que ainda levanta suspeitas de que a própria Suzane tenha forjado o documento. Por um lapso, quem quer que tenha invocado o espírito de Marísia nas linhas da carta, foi infeliz: a data do documento era posterior à morte do médium.
As tentativas da defesa foram tão mirabolantes quanto pífias. Foram elefantes brancos concebidos pelas mentes quixotescas dos onze advogados de Suzane. A distinção no banco dos réus, tão almejada e tão distante da acusada, foi conseguida por um simples gesto de Cristian Cravinhos. Depois de muito chorar diante da exposição incisiva dos promotores, Cristian pediu para ler a Bíblia. Buscava conforto em João, capítulo oitavo, que versa sobre a mulher adúltera, e que termina com um sugestivo “vai e não tornes a pecar”. Em prantos, o rapaz pede para falar com o promotor. Em conversa reservada, ele confessa ter mentido para os jurados, diz-se disposto a refazer seu depoimento e faz um pedido pouco comum: ficar segurando a mão de Campos Junior ao ser ouvido novamente. “Via de regra, é o advogado que consola seu cliente”, diz o promotor, que ali estava para acusá-lo, mas que não se negou ao pedido de Cristian.
Em contraste à atitude do rapaz, enquanto Campos Junior expunha à menina fotografias da cena do crime – corpos dos pais, sangue, massa encefálica –, Suzane ria. “Eu dizia a ela ‘olha aqui, essa é a pessoa que te deu de mamar, menina’, e a reação dela me assustava”, confessa. De fato, é de se assustar com o perfil da menina Richthofen. Há relatos de que, quando criança, Suzane matou cachorros poodle da família. Durante a sua puberdade, ela feria meninas da mesma idade. Teria sido quem introduziu drogas dentro de casa, ao irmão Andreas, quando ele ainda tinha onze anos, e o tratou com maconha até a data do crime. “É uma mente ardilosa”, reafirma Campos Junior convencido da índole de Suzane.
A decisão dos jurados, que pode parecer óbvia se considerados alguns elementos do decorrer do processo, de fato consagrou o trabalho de acusação. Mas foi por pouco: sobre a alegação da defesa de que Suzane fora coagida a cometer os assassinatos, dos votos dos sete jurados, o resultado foi quatro a três a favor do indeferimento da tese de coação moral irresistível. Por um voto, a indistinta menina seria absolvida. E Campos Junior viveria mais noites insone.
_Quiçá o Sul será uma Suíça em cem anos
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“Tu já vieste ao Sul?”, dispara o entrevistado em sotaque que reverbera no telefone e na memória. Para um paulista acostumado ao Português acaipirado do interior do estado, era uma sonoridade estranha, porém em nada incômoda. À pergunta, uma confissão: “ao coração do Sul, nunca fui. O máximo que cheguei foi em Londrina”. Os sotaques que fazem da ex-Ilha de Páscoa uma profusão cultural – e causam uma suposta sobreposição de alguns em particular – foi o estopim para o desencadear do movimento de secessão O Sul é Meu País, há quinze anos.
Sob os preceitos do taco constitucionalista Sérgio Alves de Oliveira, gerido na ilegalidade em meados da década de 80 e mantendo-se velado até 1992, o movimento O Sul é Meu País teve seu início nos pampas gaúchos, quando “todo mundo imaginava que um movimento como este não poderia estar dentro da lei”, lembra seu ex-presidente e secretário-geral do Grupo de Estudos Sul Livre, Celso Deucher, conhecido como Tchê, que na época nem fazia parte do movimento ainda. Em 1992, os separatistas registraram o movimento como entidade e os outros dois estados sulistas integrariam a empreitada revolucionária. Uma década e meia depois, o movimento anda a passos lentos e incisivos, no rumo reto da separação, como o tranco de um bagual.
Oposicionistas alegam que seu logro separatista seria o mesmo que rabiscar a Constituição Federal de 1988. O primeiro artigo de nossa lei régia ressalta que a República Federativa do Brasil é “formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal”. A mesma Constituição, por outro lado, permite que os cidadãos expressem seus pensamentos ideológicos livremente, se de maneira infraconstitucional, mesmo aqueles que pregam a dissolução do Estado.
Na esfera do Direito Internacional, a integridade político-territorial perde para a autodeterminação popular. O artigo primeiro da Resolução 2200 da Assembléia Geral das Nações Unidas, de dezembro de 1966 – documento ratificado pelo Brasil –, prega a prevalência da vontade de emancipação de um povo sobre o desejo do Estado de manter seus territórios.
De acordo com Deucher, o movimento é legal, desde que haja a opção pela luta não-bélica. “Obviamente que restringe um pouco a atuação da entidade, mas por outro lado é melhor estar na legalidade e poder trabalhar tranqüilamente”. Assim, a peleja secessionista não prevê uma guerra civil ou revolução armada de qualquer gênero, e atua, pelo menos por ora, na difusão da consciência de um Sul livre. “Três palavras-chave: discussão pacífica plebiscitária”, resume Tchê, imbuído pelo espírito libertário, e rememora um precedente bem-sucedido. Em 1994, Santa Catarina aprovou na Assembléia Legislativa o plebiscito de secessão. “Buscamos fazer um trabalho com os deputados estaduais, com o Legislativo, no sentido de que se conscientizem da necessidade de averiguar a vontade da população.”
Os passos na direção da dissolução do estado estão arquitetados. O professor afirma que agora busca apoio político interno para fortalecer o movimento. Ao perceber que os simpatizantes e adeptos formam um grupo espesso ao ponto de o movimento obter sucesso absoluto em plebiscito, então a entidade parte para a busca do apoio internacional, baseando-se em resoluções da ONU que privilegia a vontade popular em detrimento do desejo do Estado. Brasília não está nos planos do movimento: segundo Deucher, tratar do assunto na capital federal “é como botar a raposa a tomar conta do galinheiro”.

“Como decidimos que faríamos de maneira pacífica, será desta forma [política]. Mas nada impede que a gente mude de estratégia no meio do caminho”, afirma um taita Tchê, que emenda um riso e uma incógnita: “mas é apenas no decorrer do tempo que a gente determina, entendeste?”
A época não permite uma guerra civil. “Se de maneira política, de conscientização plebiscitária, podemos levar cinqüenta ou cem anos, talvez de maneira direta, revolucionária, chamando o direito dos povos na sua origem com uma guerra civil, de repente resolveríamos em dez, cinco ou três anos. Mas optamos pela luta não-bélica.” Desta forma, o golpe de estado de maneira convencional – armas em punho e clamor ao apoio popular – está descartado. Desperdiçam-se décadas, mas poupam-se vidas.
A cultura, no sentido de produção, é um dos fatores para a existência de um movimento separatista sulista. A região é formada por um povo de mais de cinqüenta origens diferentes. “Cada etnia tem uma bagagem cultural enorme, como os italianos, os negros, os alemães, os poloneses, os japoneses. Cada grupo trouxe uma séria de usos, costumes e tradições que devem ser tutelados dentro de um sistema jurídico que os respeite. E é este respeito que reclamamos”, explica Deucher. Então, Tchê retoricamente questiona “o que tem de Sul na cultura brasileira” e, em seguida, responde um sonoro “nada”. Perfilando os estados da nação, a região sul não colaboraria com essa mistura cultural brasileira. “É basicamente a cultura carioca: o samba, a bossa nova. Até São Paulo é meio marginalizado”, aponta.
Mesmo a cultural regional tem sua prevalência no Nordeste. “É um caldeirão riquíssimo onde se conseguiu uma unidade dentro dessa diversidade, e sua expressão dá de dez a zero no sul. Mas não é a cultura brasileira, e sim a cultura nordestina”, lamenta o professor, que acredita haver uma ditadura nos grandes meios de comunicação. “Se contar, não dá meia dúzia de sulista que faz cultura e tem projeção nacional. O [Luis Fernando] Veríssimo é o mais abrasileirado deles. A gente se sente marginalizado aqui embaixo”.
Enquanto o governo federal redireciona atenção exclusivista para programas de eficácia discutível e resume tudo em siglas e nomes duvidosos – PAC, ProUni e Fome Zero, só para citar os que vêm à mente –, talvez seja necessário um passeio ao coração sulista, para que o sotaque deixe de soar estranho e reverberar de maneira incômoda nos ouvidos. E tu, já foste ao Sul?
Ao contemplar um Estado independente, Deucher aponta o sistema político da Suíça como modelo. “Lá convivem quase cem tipos de línguas, as comunidades são autônomas e a liberdade cultural das pessoas é extraordinária”, diz o professor, que afirma já ter visitado algumas comunidades helvéticas e estudado sua gestão. Pensa-se em uma nova forma de máquina política baseada no municipalismo. E nada de gordos salários aos que trabalham neste novo Estado: “eles vão ter de trabalhar por amor à região”. Mais que isso: Deucher preconiza que tais gestores “terão de dar parte do individual para o comum”. Para quem imagina que o sistema político não pode dar certo, os números provam o contrário: enquanto a expectativa do movimento era lançar oitenta candidatos a vereadores em diversos municípios do Sul nas próximas eleições, o montante já chega a cento e vinte. “Além de seis candidatos a prefeito”, gaba-se Deucher. Esse número vem crescendo desde os oito vereadores eleitos no último pleito municipal. “O negócio tem que partir de baixo para cima”, ressalta Tchê em toda sua experiência.
A estimativa de Deucher é que haja apenas 25% de rejeição aos ideais separatistas. “São em sua maioria servidores públicos federais que temem pelos seus cargos e pela previdência. E a classe mais abastada, que teme perder alguns privilégios conquistados”. Há certa concordância entre a estimativa do professor e uma pesquisa de opinião realizada pelo Instituto Bonilha, em junho de 1993. Apenas um ano após a fundação oficial d’O Sul é Meu País, o estudo com 1.240 pessoas do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo – onde também há demonstrações de movimentação separatista – já demonstrava a predisposição desses estados mais opulentos à secessão. Pelos resultados, “a concessão de maior autonomia para os Estados e municípios e a revisão do atual modelo de distribuição das verbas federais aparenta ser a maior reivindicação”. Apenas no Paraná, se se permitisse um plebiscito para se decidir a respeito da separação, 44% seriam favoráveis e 53% se manifestariam contra. Um país formado somente pelos Estados do Sul seria, para 58% dos paranaenses entrevistados, um país mais rico que o Brasil atual, enquanto outros 30% discordaram. Ressalta-se que este contingente favorável à secessão ou apenas à idéia de um Sul mais rico já era expressivo em 1993, quando o movimento ainda estava em estágio embrionário.
_O santo gatuno da quadra 51
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A manhã era um clichê: Finados e céu acinzentado. Enquanto lá em cima o sol era apenas uma promessa displicente, cá embaixo, em frente ao Cemitério da Saudade, setenta vendedores de crisântemos e flores de feltro, de cocada e algodão-doce, de melancia e abacaxi, de bolas de plástico e bonecos infláveis do Homem-Aranha disputavam cada metro da calçada fétida. Empestava o ambiente um odor de óleo queimado originado nas caldeiras fumegantes das bancas que vendiam pastéis. O cheiro confundia-se ao das flores e da parafina das velas que ardiam do lado de dentro.
Ainda eram 8h10 daquele dia griséu e o cemitério era um corpo só, uma massa de gente zanzando com lentidão, vagueando com olhos plácidos os túmulos dos queridos entes. Mal se caminhava naquelas alamedas cheias de pessoas – 120 mil falecidas e 110 mil vivas até o fim do dia –, de nomes desconhecidos, de retratos desbotados, de cruzes lascadas, de flores frescas pisoteadas, de sepulturas azulejadas em tons mais ou menos austeros.
Sob um céu amantado e uma terra populosa a contemplar seus mortos, o aposentado Valdelício Beneti encontrou o sepulcro de seu santo particular e amigo da juventude, na quadra 51 do Cemitério da Saudade, em Marília. Neste Dia dos Mortos, havia mais flores que nos anos anteriores – o santo é pop. As duas placas anônimas de gratidão por milagres ainda jaziam lá na parede da capela, bem como a inscrição “Guaraci Marques Pinto, morto em 1964, com 21 anos”. Um grupo de aproximadamente dez pessoas ladeava o humilde jazigo lascado pelo tempo e pelo descuido. Com exceção da quantidade de flores, estava tudo igual aos olhos visivelmente fatigados do sexagenário Valdelício. Por mais que as visitas se repitam todo ano, para o aposentado sempre será uma emoção ímpar estar na capela de Guaraci, em vida ladrão alcunhado de Pé-de-Veludo graças a sua destreza em entrar nas casas mais ricas sem despertar os moradores.
Por vezes, invadia e furtava mesmo que a família estivesse em casa, acordada. Nunca as vítimas se apercebiam da ação devido à leveza dos passos do ladrão. O que espanta e até mesmo comove, porém, é a caridade do gatuno que, ao fim do expediente delituoso, partilhava o fruto do roubo com os menos afortunados de seu bairro: comprava mantimentos às famílias pobres; pagava refrigerante aos moleques da rua. Assassinado pela polícia em 1964 – seus amigos dizem que foi emboscada –, Guaraci tomou status de mártir. Para a beatificação à boca popular falta pouco ou nada. Mesmo do outro mundo, Pé-de-Veludo apronta das suas peripécias. Valdelício, assim com outros marilienses, diz ter sido milagrosamente curado pelo ladrão. Ou melhor, por seu espírito quase santo. No começo da década de setenta, o aposentado teve um problema no fígado. Os médicos não conseguiam curar. “Pedi ao espírito de Guaraci e fui atendido”. Fazem coro à crença de Seu Valdelício os antigos moradores do bairro, testemunhas da boa alma do gatuno. A parte que coube ao aposentado, porém, dinheiro nenhum paga. Seu Valdelício sabe disso e traduz sua gratidão no choro escondido pelos olhos amiudados pela idade.

Sempre que o aposentado visita Guaraci no Finados, esbarra em curiosos e outros ditos agraciados, em acadêmicos que pesquisam a vida do ladrão e repórteres. Neste ano, até o meio-dia, cerca de 250 pessoas passaram pela última morada daquele que, em vida, já foi o terror das moradas mais altivas da cidade. Muitas das pessoas acendem velas, e o calor próximo ao sepulcro contrasta-se com o clima ameno daquela manhã.
Postada em meio à quentura, está Vanda Lúcia Beneti, esposa de Seu Valdelício. Ela não conheceu Pé-de-Veludo pessoalmente, mas garante: se um dia seu marido não puder visitar o amigo, ela irá sozinha prestar homenagem ao ladrão. Por respeito e gratidão aos feitos miraculosos daquele gatuno após sua morte, Vanda visitará o desconhecido santo ladrão e lhe acenderá uma vela. Lamenta apenas os filhos não terem este mesmo gesto.
Um homem calvo, de camisa pólo em tom rosa enfiada na bermuda branca, pára em frente à capela. Fixa seus olhos na porta transparente – sempre trancada –, e tenta enxergar o interior. De maneira furtiva, leva a mão à testa e encosta o rosto no vidro para melhor reverenciar o retrato do ladrão. Lá dentro jaz uma fotografia antiga, visivelmente restaurada em cores, e lembra de certo algumas obras de pop art. Sim, o santo é pop. O professor Aníbal Guedes Abigail não conheceu Guaraci Marques Pinto como Pé-de-Veludo. Para os amigos, como o professor, o gatuno era apenas Vivi. Enquanto observa a imagem do ex-vizinho, Aníbal relembra sua infância e a importância daquele ladrão em sua vida.
Aos treze, o professor deixou seus amigos graças aos conselhos de Pé-de-Veludo que, na época, contava dezoito anos. “Eu estava saindo com uns bandidinhos da vila e Vivi pediu-me para manter distância daquele pessoal. Nunca mais os vi desde então. Acatei o conselho e cortei relações”, conta Aníbal, que não nega respeito ao nada infame ladrão e afirma: todos no bairro escutavam-no. Pé-de-Veludo – ou Vivi – era estimado pela inteligência e persuasão pelos moradores de uma das mais pobres regiões de Marília.
Até mesmo Aníbal, amigo íntimo de Pé-de-Veludo na década de sessenta, impressiona-se com as histórias de benfeitorias post-mortem do ladrão que ouve na rua. Desconfia, até. É comum ouvir causos de cura, especialmente. “Eu soube de uma menina que, desenganada pelos médicos, pediu a graça da cura e Pé-de-Veludo concedeu”, relata o professor, que nunca precisou pedir graça alguma para si.
Aníbal deixa a quadra 51 para, enfim, visitar seus parentes. Não sem antes olhar o aglomerado de gente na capela. Sai satisfeito e, quase em murmúrios, aquele calvo professor solta um “ele merece”. Desvia dos corpos – vivos e mortos – e some por entre cruzes, azulejos e flores.

é né.. quase um esquina.
tah na hora de subornar alguém..
ah bem vindo ao mundo colorido dos blogguers
você, com suas idéias, me instiga a fotografar…
Rodolfinho, você vai além:)
Parabéns pela matéria sobre o Movimento O Sul é o Meu País. É uma das primeiras vezes que damos uma entrevista a profissionais do Jornalismo que sai exatamente aquilo que nos propomos a declarar. Fiquei impressionado, como também jornalista, com a forma que os colegas fizeram fluir o tema e arremata-lo brilhantemente.
MEUS SINCEROS PARABÉNS!!!
Celso Deucher
Brusque SC
“Quiçá o Sul será uma Suiça em cem anos”! ! !
Bem esclarecedor o artigo/entrevista. A postura do entrevistador, parece honesta e impacial, coisa rara na mídia de nossos dias.
Parabens ao Blog “entremeados”!
Carlos Zatti
Escritor
Mto boa sua reportagem sobre a Suzane. Quer dizer q o tal espirito negão surgui com um fundamento, né!